sexta-feira, 29 de junho de 2018

EXISTE ARTE AQUI.



“Sinto que, às vezes, a gente é tão obcecado pela perfeição que deixa de criar. Deixa de colocar pra fora. De sair um pouco de si e se encontrar num texto, numa pintura, numa receita, ou qualquer outra criação. O perfeccionismo é só mais uma forma de imobilização. É só mais um jeito de ficar parado. O resultado não precisa ser perfeito; ele precisa ser você. Pra você. Criar liberta.”

Foi o que escrevi, num dia desses, na legenda da foto que postei nas redes sociais. A mesma foto que ilustra esse texto. Só faltava, na verdade, um contexto.

É que estou lendo, há alguns meses, o livro “O caminho do artista”, de Julia Cameron. Livro que me foi gentilmente emprestado pela Letícia Pacheco (cantora no duo Feito Café, dona da marca Meus Doces Bárbaros e artista dos pés à cabeça). Honro esse empréstimo porque, Deus sabe, já venho acariciando esse livro há tempos no meu pensamento.

Como a sincronicidade existe, estou me permitindo experimentá-la desde que a Lê me disse: “eu tenho esse livro!”. E, sem exagerar (o que é típico de sagitário), essa leitura tem me feito vibrar em uma sintonia diferente para comigo mesma e para com a arte. Arte, essa querida, que está Vivinha da Silva dentro de cada um de nós. Duvida?

Vai, puxe aí na sua memória o que a sua criança costumava fazer! Como ela se divertia? Como ela se sentia completa e totalmente livre? Cantando? Dançando? Desenhando? Colorindo? Encenando? Então, como você pode pensar que não existe nada de criativo em você?

Não pretendo fazer uma resenha do livro. Mas é importante dizer que ele chacoalha a gente e levanta poeira de lugares internos, até então inóspitos por opção nossa. Com ele, eu relembrei que fui feita pra criar, por meio de cada atividade (sim, exercícios práticos), por meio de cada citação (de vários nomes inspiradores) e por meio de cada página matinal (que posso contar depois).

Criar é a nossa natureza, sabe? E depois que a gente cresce, nesse mundo de comparação, perfeccionismo e exagerado senso de utilidade, vamos fechando à chave as portinhas de onde fluía tanta coisa linda quando a gente era criança. E esse é o contexto para o trecho do início. Essa é a história.

O resultado dessa leitura é esse, pessoalmente: estou voltando a respeitar essa criança interior, criativa, livre, única e cheia de potencial. Estou deixando-a participar da minha casa, da minha rotina, da minha famigerada vida de adulta.

A minha dica aqui é que você também procure respeitar a sua. Esqueça, sempre que puder, de ouvir as vozes alheias (e até a do seu próprio julgamento) que teimam em alegar que isso tudo é perda de tempo e que você tem coisas “mais importantes” a fazer. É perda de tempo descobrir-se? Jamais seria!

Experimente deixar a sua criança interior pegar em sua mão e te mostrar tudo o que vocês são capazes de criar juntos. Você pode se surpreender.


terça-feira, 8 de maio de 2018

RAIVA.



Acho que toda pessoa tem aspectos dos quais não se orgulha. Toda pessoa tem características que, ao olho nu, não são vistas. Mas quando bem perto, não há quem não as enxergue. Talvez a gente se sinta vulnerável quando alguém vê aquilo que a gente não faz tanta questão assim de mostrar. Uma dessas características discutíveis que nem todo mundo vê em mim – mas que existe fortemente – é que eu sinto raiva.

É cômico, embora constrangedor, assumir que eu sinta raiva. Digo isso porque já ouvi inúmeras vezes (mesmo!) que sou uma pessoa doce, calma e qualquer outra coisa que exprima uma serenidade que, francamente, eu ainda não tenho. Ainda. Minha mãe responderia a qualquer um desses comentaristas: “Convive pra ver!”. E ela não está errada. É convivendo, de fato, que a gente vê.

A raiva, do jeito que eu a sinto, tem muito a ver com impulsividade. Uma impulsividade louca e um tanto ridícula quando noto que alguém invadiu a minha liberdade, a minha privacidade, ou a minha verdade (e a gente bem sabe que a nossa verdade é exclusividade nossa – e nem sempre é certa). Nessas situações, me sinto invadida por uma fúria que me percorre inteira em segundos e resulta em uma fala descontrolada e impensada. Fala da qual eu me arrependo, na maioria das vezes, no minuto seguinte.

Eu não quero falar sobre as razões que me levam a me sentir assim, porque ainda estou descobrindo-as. Como eu disse, cada um tem as suas discutíveis verdades. Eu quero falar sobre o que a “culpa pela minha própria raiva” já me fez pensar.

“Você precisa parar de sentir!” ou “Alguém no mundo já se beneficiou sentindo tanta raiva?” são insights politicamente corretos que me ocorreram várias e várias vezes. E eu não me contentei com eles. Continuei questionando-os. E consegui enxergar tudo isso com um novo olhar: eu... prefiro... sentir.

Não acho que o outro mereça a minha raiva. Por isso, posso – e vou – obviamente, me policiar para que os impulsos de raiva sejam cada vez menores até se extinguirem de vez. Mas eu prefiro senti-la, mesmo que aqui dentro, escondidinha. Porque quando eu sentir essa raiva, ela me dirá um pouco mais sobre mim. A raiva falará sobre o que a desperta em mim e não mais no outro. Ela pouco tem a ver com o outro, afinal. Ela falará sobre o que está acontecendo aqui dentro. E só assim eu, finalmente, poderei aprender a como não mais senti-la.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

ISSO NÃO FAZ SENTIDO.




Tenho um defeito notável, que faz mais mal a mim mesma do que a qualquer outra pessoa que comigo convive: antecipo sofrimentos. O mal e velho “sofrer por antecipação”. Essa sensação me vem, geralmente, quando tenho algo a resolver que envolva bastante responsabilidade. Acontece também quando a maioria das possíveis coisas a acontecer não depende apenas de mim. Quando eu, definitivamente, não posso controlar a situação por completo. E não convém mentir: ainda que poucos “eventos” exijam tanto, eu transfiro a mesma sensação para “eventos” menores. Chega a ser assustador. A minha nuca logo começa a doer. Conto isso sem nenhum orgulho, vale dizer.

Dia desses, eu tinha um compromisso de trabalho bastante sério. Todos os compromissos de trabalho são sérios, mas esse estava em um nível a mais – de responsabilidade mesmo - do que os anteriores. Tudo correu bem. Sinceramente, melhor do que eu esperava. Questionei o meu sofrimento antecipado: “tinha mesmo necessidade disso tudo?”. Não tinha. Mas é difícil mesmo controlar.

Tudo correu tão bem que uma energia deliciosa corria dentro de mim, no dia seguinte. Mas como sofrer por antecipação é hábito com efeitos colaterais, logo eu me corrigi: “não fique feliz demais! Nem sempre será assim. Algo ruim pode acontecer!”. Pensei nessa sequência de afirmações com tanta naturalidade que fiquei boquiaberta comigo. Quando foi que me tornei tão pessimista?

Mais do que depressa, eu questionei outra vez essa sensação. E como uma resposta intuitiva (como daquele anjinho que nos fala ao pé do ouvido em um lado do ombro), pensei: “não querer sentir a alegria genuína é medo de estar vulnerável”.

Já te ocorreu ter medo de estar feliz? Ter medo de sentir a alegria por inteiro? De rir para você mesmo porque – sim – tudo deu certo? Não posso dizer por você, mas digo por mim... Eu pensei, com aquelas afirmações pessimistas, que sentir a alegria faz com que a gente “baixe a guarda” da vida. Mas - Deus do céu! – se o que a gente mais quer nesse mundo é ter alegria, por que a gente resiste a senti-la? Isso não faz sentido.

É que a gente não quer ser vulnerável. Eu sei. Mas, sério, eu também sei que não dá para viver sempre com armadura. Ela pesa demais.

Prefiro estar vulnerável a deixar de ser feliz. Foi a conclusão a qual cheguei.