terça-feira, 8 de maio de 2018

RAIVA.



Acho que toda pessoa tem aspectos dos quais não se orgulha. Toda pessoa tem características que, ao olho nu, não são vistas. Mas quando bem perto, não há quem não as enxergue. Talvez a gente se sinta vulnerável quando alguém vê aquilo que a gente não faz tanta questão assim de mostrar. Uma dessas características discutíveis que nem todo mundo vê em mim – mas que existe fortemente – é que eu sinto raiva.

É cômico, embora constrangedor, assumir que eu sinta raiva. Digo isso porque já ouvi inúmeras vezes (mesmo!) que sou uma pessoa doce, calma e qualquer outra coisa que exprima uma serenidade que, francamente, eu ainda não tenho. Ainda. Minha mãe responderia a qualquer um desses comentaristas: “Convive pra ver!”. E ela não está errada. É convivendo, de fato, que a gente vê.

A raiva, do jeito que eu a sinto, tem muito a ver com impulsividade. Uma impulsividade louca e um tanto ridícula quando noto que alguém invadiu a minha liberdade, a minha privacidade, ou a minha verdade (e a gente bem sabe que a nossa verdade é exclusividade nossa – e nem sempre é certa). Nessas situações, me sinto invadida por uma fúria que me percorre inteira em segundos e resulta em uma fala descontrolada e impensada. Fala da qual eu me arrependo, na maioria das vezes, no minuto seguinte.

Eu não quero falar sobre as razões que me levam a me sentir assim, porque ainda estou descobrindo-as. Como eu disse, cada um tem as suas discutíveis verdades. Eu quero falar sobre o que a “culpa pela minha própria raiva” já me fez pensar.

“Você precisa parar de sentir!” ou “Alguém no mundo já se beneficiou sentindo tanta raiva?” são insights politicamente corretos que me ocorreram várias e várias vezes. E eu não me contentei com eles. Continuei questionando-os. E consegui enxergar tudo isso com um novo olhar: eu... prefiro... sentir.

Não acho que o outro mereça a minha raiva. Por isso, posso – e vou – obviamente, me policiar para que os impulsos de raiva sejam cada vez menores até se extinguirem de vez. Mas eu prefiro senti-la, mesmo que aqui dentro, escondidinha. Porque quando eu sentir essa raiva, ela me dirá um pouco mais sobre mim. A raiva falará sobre o que a desperta em mim e não mais no outro. Ela pouco tem a ver com o outro, afinal. Ela falará sobre o que está acontecendo aqui dentro. E só assim eu, finalmente, poderei aprender a como não mais senti-la.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

ISSO NÃO FAZ SENTIDO.




Tenho um defeito notável, que faz mais mal a mim mesma do que a qualquer outra pessoa que comigo convive: antecipo sofrimentos. O mal e velho “sofrer por antecipação”. Essa sensação me vem, geralmente, quando tenho algo a resolver que envolva bastante responsabilidade. Acontece também quando a maioria das possíveis coisas a acontecer não depende apenas de mim. Quando eu, definitivamente, não posso controlar a situação por completo. E não convém mentir: ainda que poucos “eventos” exijam tanto, eu transfiro a mesma sensação para “eventos” menores. Chega a ser assustador. A minha nuca logo começa a doer. Conto isso sem nenhum orgulho, vale dizer.

Dia desses, eu tinha um compromisso de trabalho bastante sério. Todos os compromissos de trabalho são sérios, mas esse estava em um nível a mais – de responsabilidade mesmo - do que os anteriores. Tudo correu bem. Sinceramente, melhor do que eu esperava. Questionei o meu sofrimento antecipado: “tinha mesmo necessidade disso tudo?”. Não tinha. Mas é difícil mesmo controlar.

Tudo correu tão bem que uma energia deliciosa corria dentro de mim, no dia seguinte. Mas como sofrer por antecipação é hábito com efeitos colaterais, logo eu me corrigi: “não fique feliz demais! Nem sempre será assim. Algo ruim pode acontecer!”. Pensei nessa sequência de afirmações com tanta naturalidade que fiquei boquiaberta comigo. Quando foi que me tornei tão pessimista?

Mais do que depressa, eu questionei outra vez essa sensação. E como uma resposta intuitiva (como daquele anjinho que nos fala ao pé do ouvido em um lado do ombro), pensei: “não querer sentir a alegria genuína é medo de estar vulnerável”.

Já te ocorreu ter medo de estar feliz? Ter medo de sentir a alegria por inteiro? De rir para você mesmo porque – sim – tudo deu certo? Não posso dizer por você, mas digo por mim... Eu pensei, com aquelas afirmações pessimistas, que sentir a alegria faz com que a gente “baixe a guarda” da vida. Mas - Deus do céu! – se o que a gente mais quer nesse mundo é ter alegria, por que a gente resiste a senti-la? Isso não faz sentido.

É que a gente não quer ser vulnerável. Eu sei. Mas, sério, eu também sei que não dá para viver sempre com armadura. Ela pesa demais.

Prefiro estar vulnerável a deixar de ser feliz. Foi a conclusão a qual cheguei.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

AINDA SOBRE FELICIDADE.

(Imagem do Google).


Estou terminando a leitura do livro “A arte da imperfeição”, da Brené Brown, e um dos capítulos me despertou um insight, que mais parece um presente dos céus para mim. O capítulo fala sobre “cultivar brincadeiras e descanso”, mas a parte que me inspirou a escrever aqui novamente fala sobre felicidade. Somos convidados pela autora a fazermos duas perguntas a nós mesmos: (1) “O que você acha que te faria mais feliz?” e (2) “O que te faz feliz hoje?”.

Quando penso na pergunta (1), se eu precisasse listar, assim como na lista de Brené Brown, a minha teria várias coisas que preciso adquirir. Seria, basicamente, uma lista de aquisições. Seria não, é. Tenho em meu celular uma lista extensa de coisas que gostaríamos, Bruno e eu, de comprar para a casa e deixá-la mais bonita e confortável, por exemplo. Tenho também uma lista de peças de roupa “indispensáveis para o armário feminino” que ainda não completei. Não estou nem perto. E, se eu parar para pensar, consigo listar mais uma porção de itens que me fariam mais feliz nesse exato momento. A gente não pode negar que está sempre “precisando” de alguma coisa.

Em contrapartida, quando penso na pergunta (2), percebo que o que me faz feliz hoje não são necessariamente as aquisições que fiz ontem. O que me faz feliz – com aquela sensação de pertencimento a esse mundo e gratidão ao Universo – são coisas menos palpáveis. Me sinto muito feliz quando o Bruno chega em casa do trabalho e a gente pode ficar junto. Fico feliz quando consigo ficar calma e manter a tranquilidade mesmo com as adversidades acontecendo. Fico feliz quando pratico a minha criatividade, seja escrevendo, desenhando, fotografando; só por estar ali, comigo mesma. Fico feliz quando me sinto querida pela minha família e vejo que ela se importa conosco. Também me deixa feliz quando eles reconhecem que são queridos por nós. Fico muito feliz por ter, na geladeira, coisas que podemos comer; mas, fico mais feliz ainda por poder sentar à mesa com o Bruno, comer e conversar. [Só não fico tão feliz quando o Balu tenta subir na mesa. Ele ainda está aprendendo. Ou não.] Fico muito feliz quando participo das reuniões espirituais e estou ali, junto com outras pessoas, elevando nossos pensamentos. Fico feliz quando tenho uma conversa profunda com um amigo e percebo que temos mais em comum do que poderíamos imaginar. A gente não pode negar que são muitos detalhes que nos fazem felizes. E que não custam muito.

Eu não sei se você se sente, também, dependente da sua lista de aquisições, muitas vezes. Nossa cultura materialista trabalha pesado para nos fazer acreditar que ter coisas é sinônimo de felicidade. E a gente acredita. É legal ter coisas e uma vida minimamente confortável – não sejamos hipócritas. Mas, em essência, no mais profundo do nosso coração, a gente sabe que acumular pertences durante a vida não é – mesmo – o que mais importa.


Beijos e até!