sábado, 25 de agosto de 2018

A SUA RECEITA.

Ilustração por Ana Santos
https://www.anasantosilustracion.com/


Quais são os ingredientes da sua receita? – essa foi a analogia poderosamente simples que a fotógrafa Clara Sampaio usou para, no fundo, nos fazer questionar sobre o que faz a gente ser a gente.

Clara esteve aqui, em Angra dos Reis, há pouco tempo. No dia 17 de agosto, pudemos nos encontrar com ela na Casa de Cultura Larangeiras. Eu e tantos outros amantes da fotografia tivemos a sorte de ouvi-la falar sobre a nossa paixão em comum. Mas, mais do que isso, o que ouvimos dela trazia notas da maravilha de ser quem se é. E isso vai além da fotografia. Por essa doce inspiração, decidi que escreveria um pouquinho aqui; o suficiente para me fazer entender e, quem sabe, te inspirar também.

Quando a Clara nos levou a considerarmos “quais seriam os ingredientes para a nossa receita na fotografia”, uma porção de insights surgiu aqui dentro. Dentre eles, emergiu uma releitura do questionamento que ela nos fez, que seria mais ou menos essa: quais são os ingredientes que fazem você ser a pessoa que é?

Assim como uma receita resulta de um misto inteligente de ingredientes, nós – humanos complexos – também somos o resultado de um misto deles: os nossos comportamentos, os sentimentos que temos, as características que carregamos; nossas visões, desejos, nossos sonhos e planos. Tudo isso incorporado.

Como em uma receita, há medidas e medidas que nos tornam ora doces, ora amargos. Como em uma receita, temos nosso próprio tempo para nos transmutar. Como uma receita, agradaremos ou não aos diferentes paladares desse mundo. Como uma receita, o toque daqueles que nos auxiliam a construirmos a nós mesmos sempre nos transforma de um jeito único. Como qualquer receita, ainda que nos assemelhemos com muitas outras, jamais seremos iguais a nenhuma delas.

Considerando isso, talvez a grande diferença – e maior benção – entre nós, humanos, e uma receita seja essa: estaremos sempre em preparo. Nunca seremos uma mistura perdida e nem sequer um prato finalizado. E isso não seria uma dádiva?

Cá estou eu me perguntando, graças a Clara, quais são os ingredientes que, hoje, me tornam a Laysla que sou. E que deleite é poder descobrir!


- Um beijo grande a Clara Sampaio, que tanto nos inspirou com o seu jeito amoroso e divertido. Outro beijo a Bel Sampaio, irmã da Clara, tão simpática (e que também conversa sobre astrologia em um primeiro papo)! Gratidão! -

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A MELHOR IDEIA DE TODAS.

Ilustração por Fernando Cobelo.


Eu sou o tipo de pessoa que se empolga. Daquelas que quando tem uma nova ideia pensa ser essa a melhor de todas as outras. Pode ter a ver com o exagero típico de sagitário? Pode. Mas talvez tenha muito mais a ver com a falta de clareza que toda empolgação traz.

Seja para curar uma ferida, para criar novos desafios, para colocar a vida em movimento, as novas ideias surgem sempre coloridas por aqui. “Essa, sim, vai me salvar!” – penso, ignorando firmemente que toda moeda tem dois lados.

A gente bem sabe – já deu pra perceber – que a vida não é tudo azul, todo mundo nu, como canta o Lulu. Tudo na vida, por mais belo que seja, tem o seu desafio. E por acaso você acha que eu me lembro disso na hora do êxtase? É claro que não.

Os dias vão passando e a máscara multicolorida da fantasia se desfaz pouco a pouco. A realidade – convidada que tarda, mas sempre aparece – vem lembrar que, há algum tempo, não somos mais crianças. Mas que nem por isso há de ser ruim.

Ela vem dizer que, às vezes, é necessário escolher o seu desafio preferido, em vez de escolher só aquilo que te encanta em cada ideia. E que se assim for - se a gente escolher os desafios que quer e pode enfrentar - essa jovem senhora que a realidade é não vai mais surpreender quanto bater à porta. Quando ela chegar, já vamos poder dizer: “eu estava esperando por você, pode entrar!”.  


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

MODO AVIÃO.

Pawel Kuczynski

Já são 12h03 e eu já pensei várias vezes em tirar o celular do modo avião. Me rendi, mas não por inteiro, quando precisei pesquisar “quantos dias a maionese caseira dura na geladeira”. Rapidamente, decidida a fechar os olhos para qualquer notificação que saltasse aos meus olhos sem permissão, consegui fazer a minha pesquisa e reabilitar o modo avião em menos de 1 minuto. Me senti vencendo na vida.

Pra ser sincera, eu sei que não poderia me dar ao luxo de me desconectar completamente do meu celular-que-não-serve-pra-chamadas-mas-pra-usar-a-internet-loucamente. Ele é a minha ferramenta de trabalho, então, por mais que eu queira [tentar] ficar muito mais tempo offline, eu não o faço. Sei que, hoje, o meio direto mais simples dos clientes se comunicarem com a gente é o Whatsapp, por exemplo. Esse camarada insistente, que não entendi – ainda - se mais me ajuda ou atrapalha.

Digo “insistente” porque nenhuma ferramenta de “stop and calm down, guys” funciona. Pelo menos, não comigo. Já usei status claríssimos no Whatsapp, como “deixe sua mensagem, respondo em breve”, assim como troquei a minha foto de perfil bonitinha por um alaranjado e potente “OFFLINE”. Não adiantou. As mensagens chegavam.

Quero deixar claro que eu não vejo problema no fato das mensagens chegarem. Verdade! Elas precisam chegar mesmo. E eu até gosto de conversar pelo Whatsapp, pela praticidade do aplicativo, sim. Mas a questão é que as mensagens chegam a qualquer hora, carregadas de um cunho emergencial que é difícil ignorar. No fundo, beeem lá no fundo, eu penso “mas se fosse tão urgente assim, ela teria me ligado”. Mesmo com esse autoconsolo arraigado, eu não consigo responder no meu tempo, com medo de parecer indelicada.

Ah, existe também um outro lado da moeda, com aquelas respostas que nunca chegam. Sim, se fosse tão urgente, “eu teria ligado”. Mas, na minha cabecinha dura, o tempo de respiro para uma resposta plausível a uma mensagem seria de, sei lá, menos de 24 horas?! Algumas respostas vêm três dias depois. O que não é necessariamente um problema, considerando a gravidade do assunto. Mas como eu digo isso pra minha ansiedade?!

Ah, que complexo! Num dia a gente ocupa o papel de ausente; noutro, de insistente. Isso me soa chato. E, posso te dizer? Esse novo modelo de comunicação tem me desconectado das coisas físicas. Do momento aqui, simplão. E de todos os pormenores que eu citei antes, essa é a única coisa pela qual eu sinto muito. Responder mensagens com a velocidade da luz, okay. Receber respostas com a pressa da lebre que dorme debaixo da árvore, okay, também. Mas perder o felling das coisas que estão acontecendo no mundo real ao meu redor... isso é demais pra mim.

Não só o Whatsapp me preocupa. Sou viciada pela vida online. E, como em qualquer vício, a gente acaba perdendo a noção de realidade. Não dá. Vir aqui falar sobre isso talvez me traga um senso de responsabilidade a mais pra entender que o tempo online é outro. Não condiz com o tempo real. Quem sabe, então, entendendo isso, eu me culpe menos por não ser instantânea e, também, julgue menos quem tem o tempo da lebre que dorme debaixo da árvore.