sábado, 8 de dezembro de 2012

CASO DE SOLIDÃO?


Vira-e-mexe, ocorrem cenas que me pegam de surpresa nos meus dias, transformando-os numa oportunidade de reflexão. Dessa vez, foi no ônibus. Numa quinta-feira, mais especificamente às 06:00h, um cidadão não muito velho, bem vestido e bastante desequilibrado não se conformou quando, ao embarcar, viu o motorista conversando com uma senhora, que embarcou ainda na rodoviária.

O tipo curioso, que parecia fazer questão de ser entendido (e correspondido), disse em alto em bom som que se a conversa paralela não fosse interrompida naquele momento, ele acenderia um cigarro. “Quero ver o que ele vai fazer.” – ele disse, invocado. “Chamo a PM e fica tudo resolvido!”. Comecei a notar certa ausência de lucidez.

Ficou na dele, não necessariamente em silêncio. Disse ainda que, na delegacia, ele tem voz. E eu fiquei me perguntando por que é que ele não calava a boca. Nesse horário, o ônibus está sempre cheio de gente trabalhadora. Gente que dormiu, provavelmente, menos de 6 horas por noite, sendo obrigada a ouvir papo-furado. Foi meu primeiro juízo. Não demorou, meu incômodo com o fulano se converteu em compaixão. O homem começou a recitar alguma música; poema, talvez, bem infeliz. Um dos versos dizia “Será que Deus ainda olha pra mim?”. Não sei se foi coisa improvisada, mas rimas havia.

Considerei injusto o meu primeiro juízo. E pensei que poderia ser um caso de solidão. Quem se sente só, precisa de atenção, quer ela venha por bem, quer ela venha por mal. Se não foi isso o que o moveu, o ocorrido pode ter sido provocado porque ver a vida de alguém fluir, assim, espontânea – como a do motorista e da senhora – não deve ser bem-vindo, pra quem vai mal.

Talvez, a diferença entre os ditos sensatos (como eu) e o inconformado do ônibus seja o fato de que os loucos falam, quando não gritam, sua própria aflição. Mesmo que ninguém, principalmente às 06:00h da manhã, esteja disposto a ouvir.

Um comentário:

  1. Bom texto, bom para reflexão. Não devemos julgar as pessoas e a maioria das vezes o fazemos.

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