sábado, 1 de dezembro de 2012

PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO.




Tenho estado atento ao jeito desembolado que ela tem. Sem meios termos e sem muito mistério. Uma delicadeza forte, nada dependente. Luma chega a qualquer lugar e já vira luz, irradia. Não ri de maneira escancarada: aperta os olhos, estende os lábios, mostra pouco dos dentes, bem brancos. Abre os olhos, como num estalo, me olha de baixo pra cima. Fico tonto. É assim toda manhã. Não há santo casamenteiro e nem reza de mãe que tenha feito fluir qualquer coisa.

Gosto demais de tatuagens, das menores. Acho sexy. Ainda mais aquelas duas que ela tem. Uma na nuca, outra no pulso direito; uma estrela. Na nuca, uma escrita. Deve ser hebraico, árabe ... qualquer outra língua que eu não entendo. “Pedro, o que será que tá escrito ali?” – sempre perturbo o Pedro com essa besteira. “Deve ser o seu nome, Túlio.” – diz ele, com a mais sacana cara de deboche. “Lembra que quando a Luma entrou na empresa, ainda não tinha nada na nuca? Quem sabe?”. Bem que poderia ser. Luma sentindo um amor secreto por mim. Homens juntos são, na maioria das vezes, eternas crianças. Eu não sou exceção. Com esses assuntos com o Pedro, um mais tolo que o outro, o departamento inteiro já deve ter percebido essa minha atração. A chefia me encara com mais seriedade, até. Finjo que não sei de nada (afinal de contas, não há nada a se saber).

Festa do setor. Era tudo o que eu precisava, não fosse a minha timidez descabida. Resolvo com taças cheias, quase sempre. Luma chegou lindíssima, ruiva, salto fino e muito alto. Pernas de fora, bem brancas. Todos os caras da empresa ao seu redor; não é de se admirar. E eu, lá, no canto do bar. “Como ela pode ficar tão à vontade no meio deles e, ao mesmo tempo, não parecer nada, nada fácil?!” – fico curioso. É esse jeito moleca e esse corpo mulher que eu queria pra mim. Linda, linda, linda.

Na quinta taça, ainda não havia me aproximado dela. Duas da manhã. Tomei mais um gole, passei a mão no que ainda me resta de cabelo e segui na direção de Luma. “A festa ficou ótima, não é, Luma?” – perguntei, quase sem voz. “Ficou muito boa mesmo, Túlio. Você deveria ter ficado aqui conversando com a gente!”. Ela nem imaginava o quanto eu queria. Salvo pelo gongo, o celular dela tocou antes que eu pudesse responder. Another one bites the dust, Queen. Audaciosa. “Já vou, meu amor.” – Ela respondeu à voz eletrônica e, eu não acreditei que ela tem alguém. E menos ainda que não dava tempo de fazê-la mudar de ideia.

Nos despedimos com um “Até amanhã!” de canto de boca. Mas eu não resisti. Uma curiosidade imensa ferveu o meu sangue. Esperei até que ela descesse o elevador e me posicionei na sacada de modo que ela não me visse. Num carro vermelho, uma morena – linda - parecia esperá-la. E lá foi ela, em direção ao carro. Em direção à morena. Chegou perto, muito perto. Muito perto. Aquilo foi mesmo um beijo? Na boca?! Fiquei atônito.

A Luma gosta é de mulher. Esse foi o único pensamento que me ocorreu durante toda aquela noite. Perdi o sono. Ainda não dá pra acreditar! Os dias pensando nela, perdidos. O que ainda me conforta é que ela tem bom gosto e só. Dei risada, sozinho. Mais bêbado, depois da festa, por conta das minhas garrafas escondidas em casa. Virei de um lado para o outro da cama. Nada do sono vir. E, não. Não é que eu não conseguisse deixar de pensar na Luma. O que eu estava tentando era não pensar na Luma ... e na morena, juntas. Seria quase como um prêmio de consolação.

Sim! Infelizmente, estou apaixonado. Mas ainda sou homem. E a Luma me deve (sem saber) pelo menos um pensamento indecente.

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