domingo, 15 de junho de 2014

SE TUDO PODE ACONTECER.


No tempo em que eu era mistério, o perfume sutil que impregnava minha pele, insistente, passava rápido pelo seu rosto quando, num abraço, eu te aproximava a nuca. Seus olhos – pequenos e apertados – passeavam em mim. Olhos breves, errantes, que mais pareciam desentendidos sobre o que estavam fazendo.
Eu fazia que não, mas via. Lia o que queriam dizer, nas entrelinhas, os seus braços semiabertos sobre a mesa; o seu corpo inclinado à frente; o seu costume incrivelmente charmoso – e intencional – de mexer nos cabelos, a fim bagunçá-los ainda mais. Eu via, como quem não se importa se é miragem ou realidade aquilo que vê. Miragem, talvez. Miragem, no tempo em que eu era mistério.
Você vinha cheio de palavras. Algo de novo, a cada vez. Falava sobre dons, persistência, amor-próprio. E sobre qualquer outra coisa, que eu não ouvi, provavelmente por prestar demasiada atenção nos seus dedos despenteando os próprios cachos.
Eu já começava a me perguntar o por quê. Não das palavras de sempre. Mas do corpo inclinado à frente e dos olhos passeantes. E então eu, depois de tantas palavras semicheias, mesmo que o quebra-cabeças do real me impedisse, nos impedisse … eu quis saber como seria se. Se os braços semiabertos, brancos e macios, me envolvessem; se os olhos apertados passeassem por debaixo dos panos, todos. Se eu largasse o penteado pra me bagunçar nos seus dedos. E quando os “se” fizeram-se muitos, saí. Saí porque aqueles olhares, abraços e cachos não eram meus. Não pareciam ser.
Mas, veio o tempo, bonito, me dizer que, naquele seu quebra-cabeças disforme, esparramado sobre a mesa das terças-feiras obrigatórias, ainda faltava uma peça.




[Se tudo pode acontecer.]

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