quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

23.


Eu me lembro que, quando criança - uma criança fissurada por desenhos animados e finais felizes exuberantes -, costumávamos, meus pais e eu, cantar a música de desaniversário que cantavam Alice, o Chapeleiro Maluco e outros personagens de Alice no País das Maravilhas, que minha memória de qualidade me permite esquecer agora. Um bom desaniversário pra mim, sim, sim! - cantavam no desenho, enquanto tomavam chá. 

Talvez, conforme eu venha ficando mais velha (embora, não tão mais velha), as comemorações de aniversário, de fato, estejam tornando-se mais intimistas, eu diria. E muitas pessoas já haviam me sinalizado que isso aconteceria, qualquer ano desses. Hoje, essas datas vem carregadas de um quê de nostalgia boa; talvez, pelo fato de que a festa não mais me espere pronta, com um bolo doce e outro salgado na mesa, enquanto a cama grita: "Vem!", cheia de presentes desembrulhados e esticados sobre ela, todos bem combinadinhos. 

Existe uma vontade tão forte de reunir pessoas! Aqueles que estão longe. Aqueles que estão por perto. Pessoas que, durante toda essa vida bonita, surgiram e preencheram os dias de sorrisos fáceis, conselhos valiosos, desafios. Pessoas que, cedendo uma parcela de si, me tornaram quem sou. Quando numa distração, me pergunto o que deve ser comemorado, algo de são em mim me responde que, além da minha própria vida, a comemoração - ainda que singela e íntima - deve ser por quem tenho. Por quem tenho ao lado. Pelo que tenho, sem ser merecido. O que me faz pensar que Alice e seus companheiros tinham razão em comemorar os desaniversários. Nos desaniversários é que surgem os amores, os amigos, as histórias. 

O dia do aniversário, desconsiderando dias de semana e finais de semana, termina. Muito similar aos outros dias. Com trabalho a fazer, horários a cumprir, pequenas e doces alegrias. A diferença que vale, e vale muito nesse dia, é a gratidão que transborda o peito e alcança os amores em forma de energia e oração. Gratidão, que agradece à vida com um beijo de boa noite.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

DOIS.



Vez ou outra, vinha a culpa, travestida de nó na garganta, por não saberem como fazer aquilo que alguém deveria tê-los ensinado quando não podiam, ainda, aprender as coisas por si próprios. Porque ninguém mostrou a eles como deveriam carregar a bagagem sem sentirem dores por todo o corpo?

São dois. Dois perdidos. Dois perdidos que se encontraram no meio de uma encruzilhada.

Um homem-menino, que espera do mundo coisas que mal sabe quais. Tem a cabeça nas alturas da Serra e os pés na estrada empoeirada pra qualquer lugar. E aonde quer que a vida queira, ele quer estar. Pisa lugares novos: terras e corações. É apaixonado pelo novo e ainda não aprendeu que a vida também se faz de constâncias. É radical. Sente raiva algumas vezes; mas, nessas, fica bonito quando franze as sobrancelhas. Não entende bem a configuração do mundo, que não é muito justo. Debruça o coração na vida enquanto canta, como se dissesse ao infinito: me ouça, porque eu estou aqui. E sofre quando ele mesmo sente que não está por inteiro no mundo.

Uma menina-mulher que espera muito de si. Que gostaria de lapidar-se a cada experiência que tem, vacilante ou não, a fim de alcançar uma perfeição que, mal sabe ela, não existe em ninguém. Distraidamente, torce para que a felicidade chegue logo e venha mais e mais, até não caber no balde. Mas, perde na ansiedade a doçura daquilo que é muito mais simples do que ela pensa. Seu modo assustado de ver a vida – e vivê-la – não condiz com o seu sagitário, aventureiro e só. Quer aventuras, sim. Nos sentimentos. Acredita que tudo ficará bem um dia, mesmo que esse dia não seja, exatamente, hoje.

Dois perdidos que se encontraram no meio de uma encruzilhada. Dois achados, agora.

Alguém deveria ter dito a eles: Não há bagagem pesada o bastante que um relaxante muscular não ajude a carregar. Só não se iludam que será fácil. Ninguém nunca disse que seria. Tenham suficiente amor-próprio e abundante amor-não-próprio. Tirem suas roupas sempre que puderem. Juntos. 

Só não se percam de novo. 
De si mesmos. 
Um do outro.