quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

DOIS.



Vez ou outra, vinha a culpa, travestida de nó na garganta, por não saberem como fazer aquilo que alguém deveria tê-los ensinado quando não podiam, ainda, aprender as coisas por si próprios. Porque ninguém mostrou a eles como deveriam carregar a bagagem sem sentirem dores por todo o corpo?

São dois. Dois perdidos. Dois perdidos que se encontraram no meio de uma encruzilhada.

Um homem-menino, que espera do mundo coisas que mal sabe quais. Tem a cabeça nas alturas da Serra e os pés na estrada empoeirada pra qualquer lugar. E aonde quer que a vida queira, ele quer estar. Pisa lugares novos: terras e corações. É apaixonado pelo novo e ainda não aprendeu que a vida também se faz de constâncias. É radical. Sente raiva algumas vezes; mas, nessas, fica bonito quando franze as sobrancelhas. Não entende bem a configuração do mundo, que não é muito justo. Debruça o coração na vida enquanto canta, como se dissesse ao infinito: me ouça, porque eu estou aqui. E sofre quando ele mesmo sente que não está por inteiro no mundo.

Uma menina-mulher que espera muito de si. Que gostaria de lapidar-se a cada experiência que tem, vacilante ou não, a fim de alcançar uma perfeição que, mal sabe ela, não existe em ninguém. Distraidamente, torce para que a felicidade chegue logo e venha mais e mais, até não caber no balde. Mas, perde na ansiedade a doçura daquilo que é muito mais simples do que ela pensa. Seu modo assustado de ver a vida – e vivê-la – não condiz com o seu sagitário, aventureiro e só. Quer aventuras, sim. Nos sentimentos. Acredita que tudo ficará bem um dia, mesmo que esse dia não seja, exatamente, hoje.

Dois perdidos que se encontraram no meio de uma encruzilhada. Dois achados, agora.

Alguém deveria ter dito a eles: Não há bagagem pesada o bastante que um relaxante muscular não ajude a carregar. Só não se iludam que será fácil. Ninguém nunca disse que seria. Tenham suficiente amor-próprio e abundante amor-não-próprio. Tirem suas roupas sempre que puderem. Juntos. 

Só não se percam de novo. 
De si mesmos. 
Um do outro.

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