domingo, 26 de junho de 2016

SOBRE O DIA EM QUE EU QUIS DESISTIR.


Foi num dia qualquer. Dia em que uma porção de coisas aleatórias aconteciam. Em que eu acordei no mesmo horário de sempre, comi a mesma coisa no café da manhã e me comportei como quase sempre me comporto. Foi num dia desses, como outro qualquer, que eu pensei em desistir.

Não posso garantir que toda e qualquer pessoa, em algum momento, se depare com esse desejo. Mas, eu prefiro acreditar que sim. Procuro não me ater a ideia de super heróis; super humanos. Saber que existe gente que falha como eu, embora seja um pensamento egoísta, é também um grande conforto. Saber que não estamos sós, sempre é. Não ouço mais Nando Reis, mas me lembro daquele verso: "eles estavam livres da perfeição". Pensar em desistir seria inerente ao homem, então.

Antes que você pense que falo de amor, esclareço que não. Não foi do amor que eu pensei em desistir. Mas, sim, desse plano louco de escrever. De me expor. De me doar em cada letra. E, hoje, uma semana depois da noite que pensei em desistir, me dói lembrar disso. E eu, claro, vou te dizer o que houve. 

Nesse mesmo dia, comum como os outros, assisti à peça O Camareiro, com Tarcísio Meira e Kiko Mascarenhas. Nela, Tarcísio interpretava um ator, que depois de anos entregue ao teatro, vê-se no fim da vida sem ter alcançado grandes feitos; sem ter um grande reconhecimento; sem grandes riquezas; ainda que tenha dedicado toda a sua vida àquilo que amava: interpretar. Cansado e um tanto louco, o ator morre. E nada mais acontece.

Pode parecer ridículo, mas ao final do espetáculo eu não conseguia conter o choro. De alguma forma, aquela personagem que Tarcísio interpretou é um pouco de cada um de nós. ERA EU! A ideia de que nós duramos até sermos esquecidos se instalou em mim como num estalo. Às vezes, antes mesmo da morte, o esquecimento já nos alcança. E creio que foi isso que me emocionou tanto. O esquecimento é rápido como um piscar de olhos.

Às vezes você se pergunta qual é a razão de tanto esforço? Se pergunta por que continua tentando fazer algo de valor ainda que tantas pessoas o ignorem? Ou ainda se pergunta por que segue em frente enquanto existe quem queira o seu fracasso? Eu me pergunto. Aliás, naquela noite, eu me perguntei, literalmente. Enquanto chorava. Meu conforto veio no abraço do Bruno. E numa reflexão bem singela: 

- Laysla, você não adora o livro do Steve [Pavlina]?
- Adoro.
- Ele não faz ideia de que o livro dele mudou a sua vida.

E, claro, ele nunca vai saber. O que o Bruno quis dizer com isso me parece ter sido que se ao menos uma pessoa no mundo, seja essa pessoa quem for, se sentir inspirada pelas minhas palavras, ainda que tão simples, terá valido o cansaço, o esforço, a dedicação. Desistir, em última análise, me pareceu ser injusto comigo mesma. Aquele ator, na peça, morreu, sim; e foi esquecido. Mas, em vida, se dedicou ao que amava. Não seria esse o segredo da perseverança? Dedicar-se ao que ama?

Tenho certeza que, em qualquer dia desses, essa sensação voltará, embora eu não queira. Mas espero, de coração, que eu mantenha o esclarecimento que tive naquela noite, dentro de um abraço: se as minhas palavras me fizerem bem, fui fiel ao meu coração. Se fizerem bem a um outro alguém, alcancei aquilo que chamam de FELICIDADE!

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